| | Uma ciranda para vencer o comodismo
Treze em cada cem brasileiros adultos são empreendedores. O problema é que 41,6% dos 7,5 milhões de brasileiros que empreendem não o fazem por oportunidade, mas por necessidade. Ou seja: somos, na média, uma nação de maus empreendedores. Enquanto um americano fareja uma nova oportunidade de negócio pela sua inovação, seu diferencial e suas chances de destaque em um mercado canibalizado, o brasileiro (geralmente desempregado e sem alternativa) abre as portas de uma nova empresa em busca de sobrevivência. Resultado: abre um café em uma rua de dois quarteirões dominada por seis outros cafés. Na primeira oportunidade de emprego fixo, ele baixa as portas do estabelecimento imediatamente.
Nos Estados Unidos, apenas uma a cada dez pessoas abre um negócio por necessidade. No Brasil, este número sobe para cinco. A diferença entre empreender por sobrevivência e por oportunidade é que, no primeiro caso, o indivíduo não faz pesquisa de mercado, não analisa a concorrência, não segue uma metodologia e não se prepara para enfrentar desafios. O passo seguinte não é surpresa para ninguém e pode ser visto nas estatísticas. A cada cem negócios abertos, trinta morrem no primeiro ano por falta de planejamento e preparo.
"O bom empreendedor é aquele bem empregado, que estudou e planejou seu negócio, estudou, tem uma boa rede de contatos e que quando surge a oportunidade larga seu trabalho para perseguir um sonho. Este é o empreendedor por oportunidade e aquele com maior chance de ter sucesso", explica Marco Hashimoto, coordenador do Centro de Empreendedorismo do Ibmec São Paulo.
Estudo realizado pelo Global Entrepreneurship Monitor com 42 países - entre desenvolvidos e subdesenvolvidos - mostra que o Brasil é o nono mais empreendedor. No passado, já ocupou posição melhor - ficou alguns anos entre o sexto e sétimo lugar. "Embora seja um povo muito empreendedor, o brasileiro não tem ambição", afirma Karen Canaan, diretora de relações institucionais da Endeavor.
A boa notícia, no entanto, é que o brasileiro está empreendendo mais e também assistindo a uma verdadeira invasão do tema no seu dia-a-dia. De 17 a 23 de novembro, mais de um milhão de brasileiros deverá participar da Semana Global do Empreendedorismo, movimento que acontece simultaneamente em mais de 50 países e visa fortalecer o empreendedorismo em todo mundo.
No Brasil, o movimento é liderado pela Endeavor e já conta com a adesão de mais de 250 organizações, incluindo Sebrae, Senac, Bovespa, Movimento Brasil Competitivo, Instituto Ayrton Senna, Banco Real, Citibank, USP, FGV e Unicamp. Cada uma delas se comprometeu com a promoção de palestras, debates, gincanas, competições, jogos e outras atividades para ensinar e incentivar a atitude empreendedora aos jovens brasileiros.
Por se tratar de uma questão cultural, o empreendedorismo vem conquistando espaço dentro de escolas, faculdades e universidades. Em alguns casos, transformou-se em disciplina, em outros em curso paralelo. Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Pontifícia Universidade Católica (PUC) e Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) já levam o empreendedorismo para a sala de aula.
"O empreendedorismo deveria ser disciplina obrigatória em todos os estágios da formação, desde o ensino fundamental até o doutorado", afirma Ricardo Tortorella, diretor superintendente do Sebrae-SP.
Ele defende que a cultura empreendedora seja levada ao habitat natural dos jovens, que é a escola. Dentro deste conceito, o Sebrae-SP elaborou o Programa Estadual de Educação Empreendedora para o Ensino Formal que vê a escola como um ambiente positivo para a difusão da cultura empreendedora e o professor como o principal elemento de difusão.
Levantamento do Sebrae-SP, mostra que é crescente a participação dos empreendedores acima de 50 anos entre quem está abrindo um negócio. Há três anos, a porcentagem era de 13%. Hoje, ela gira em torno de 17% - são 30 mil negócios liderados por pessoas nessa faixa etária só no estado de São Paulo. Outro dado mostra que pouco mais de 50% dos novos empreendimentos são liderados por mulheres. Há duas décadas, essa porcentagem era de 30% a 40%.
Apesar do crescimento do debate em torno do empreendedorismo, o Brasil é um país complexo e difícil, que não estimula os indivíduos a empreender. O primeiro problema diz respeito à alta carga tributária. "Ao todo, são 25 taxas, entre municipais, estaduais e federais, que correspondem a duas vezes o lucro bruto do empreendedor. De quebra, o brasileiro gasta por volta de 2,6 mil horas por ano só para cumprir com suas obrigações legais, como pagamento de taxas, registro e levantamento de documentação", lembra Hashimoto. Isso leva um batalhão de pessoas a trabalhar na informalidade. Abrir oficialmente uma empresa também é tarefa árdua por aqui. Enquanto nos Estados Unidos leva-se 24 horas para registrar e abrir um negócio, no Brasil o tempo médio é de 152 dias.
A informalidade é ruim para o país, que não recolhe impostos, e também para o negócio, que deixa de ter acesso a crédito e perde a chance de vender para o governo. Um empreendedor americano gasta por volta de US$ 67 mil para iniciar um negócio. No Brasil, o valor médio é de US$ 5,5 mil, mas 55% dos empreendedores gastam menos de US$ 1,2 mil, geralmente devido à dificuldade de obtenção de linhas de crédito.
Café gourmet ajuda a matar saudades da infância De São Paulo 29/09/2008
Aos 53 anos ela deixou de lado uma carreira como executiva de uma multinacional e voltou às suas origens. Na sua cidade natal, Dourados, a paulista Maria Helena Monteiro, adquiriu de volta a Fazenda Monte Alto, lugar onde nasceu, cresceu, se casou e, agora, pretende envelhecer. Lá seu avô plantava café, mas nunca industrializou a produção, coisa que está sendo feita agora por ela.
O Café Helena é fruto desse seu empreendimento.
No agronegócio, lembra Maria Helena, existem determinantes incontroláveis como a falta de chuva, o preço baixo, a quebra de produção, a dificuldade para encontrar mão-de-obra especializada, entre outros fatores que interferem negativamente no negócio e não dependem da capacidade e do empenho do empreendedor para evitá-los. "Tive que investir muito mais do que o planejado por causa desses problemas, o que gerou muito estresse, insegurança e medo", conta Maria Helena.
O Café Helena é plantado, cultivado, colhido, secado, armazenado, classificado, torrado, moído e embalado na própria fazenda. A verticalização da cadeia produtiva foi a maneira encontrada por ela para garantir o controle da qualidade.
Atenta ao meio ambiente, Maria Helena faz a criação de carneiro consorciada ao café. "O carneiro pastoreia nos cafezais comendo e adubando e são os testemunhos de que a lavoura é ecologicamente correta. A palha do benefício do café é aproveitada na forração da cama de frango dos aviários e, depois, vira adubo para a lavoura", conta.
Hoje, Maria Helena é uma referência na região. Sua fazenda é considerada um exemplo em termos de processos - ela é altamente mecanizada -, gestão e cuidados ambientais. Sobre o faturamento, Maria Helena não revela números, mas garante que seu negócio é auto-sustentável.
Atualmente, a Café Helena tem uma média de 400 clientes, entre cafeterias, padarias, restaurantes, empresas privadas e pessoas físicas. Seu foco é vender café torrado em grãos de qualidade ou café gourmet para a capital paulista e o interior, embora seus grãos crus de café também sejam exportados. "Tenho várias propostas para exportar o Café Helena torrado em grãos, o que não é fácil, já que são muitas as exigências e taxas para enviar o produto para o exterior", explica ela.
Vender café para fora e para o mercado interno é um desafio e tanto mas no momento o que a preocupa é o fato de alguns clientes comprarem seu café, suas xícaras e seus banners e, no mês seguinte, adquirirem um produto mais barato mas continuarem usando a sua marca.
Mesmo assim ela não desanima e sempre aparece com novidades. Suas metas, agora, são a exportação do café industrializado e a implantação, mais para frente, do turismo de visitação e degustação de café na fazenda, como se faz nos vinhedos. (F.T.)
Quando o inconformismo impulsiona a criação
Quais as reais chances de um dentista se tornar um empreendedor? Muitas, se ele identificar os principais desafios da profissão e buscar aperfeiçoar técnicas e processos. Foi por inconformismo com as técnicas artesanais usadas na Odontologia e por conta da morosidade resultante no atendimento ao paciente que, há 14 anos, o dentista paranaense Roberto Queiróz Martins Alcântara fundou a Angelus, uma empresa que pesquisa, desenvolve e industrializa produtos de consumo para as áreas de dentística (materiais restauradores), prótese (coroas) e endodontia (tratamento de canal). Hoje, a empresa tem faturamento de R$ 10 milhões, 300 clientes e 58 funcionários. De sua sede, em Londrina, ela exporta para 54 países, o que corresponde a 30% de sua receita. O mercado no qual a empresa atua movimenta US$ 12.5 bilhões por ano em todo o mundo, sendo que os maiores compradores são os Estados Unidos, a Europa e, depois, a América Latina.
Hoje a empresa concentra seus esforços na expansão do mercado internacional e por isso ganhou o apoio da Endeavor.
A transformação de uma idéia em uma empresa rentável ocorreu em três fases. Nos primeiros cinco anos, a Angelus apostou nos produtos inovadores, desenvolvidos internamente e com baixo cunho tecnológico. Nos cinco anos seguintes o foco foi para a inovação, feita em parceria com universidades e centros de pesquisa.
A fase três, conduzida nos últimos quatro anos, foi beneficiada pela Lei de Inovação. Por meio dela, a empresa aproveitou os editais governamentais com recursos não-reembolsáveis que privilegiavam projetos inovadores de empresas com currículo e estrutura focada em ciência e tecnologia.
"Nós éramos pequenos, mas tínhamos um histórico de patentes, parcerias regulares com universidades e centros de pesquisas, pesquisadores e bons projetos", recorda Alcântara. Em 2006 e 2007, a Angelus conseguiu aprovação para os cinco projetos submetidos à Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). Com esses recursos, partiu para o que chama de inovação de alto cunho tecnológico.
Hoje, a Angelus tem uma linha de 35 itens. Seu carro-chefe, no entanto, é a produção para a área de dentística, à base de fibras de vidro e carbono (pinos, núcleos, pônticos). Alcântara assegura que eles são inovadores por possuir alta resistência mecânica, leveza e excelente estética.
Apesar do foco agressivo em P&D, a Angelus sabe que seu crescimento deve se embasar no investimento do conjunto da empresa. A sede da empresa, por exemplo, foi construída para possibilitar um crescimento de 400%; as certificações necessárias para atuar no mercado global foram obtidas (ISO 13.485; Diretiva CE para Europa e FDA para os Estados Unidos) e os canais de distribuição interna e externa, minuciosamente escolhidos.
"Também estamos analisando alguns fundos de investimentos para projetos de expansão", diz Alcântara. No médio prazo, o antigo inconformismo de um dentista poderá levá-lo ao IPO. (F.T.)
|
|
|